2017-12-16

que falta de discernimento


Não comento o caso concreto, (por total desconhecimento), nem a validade do juízo (pela mesma razão), mas a redutora observação  de que "uma mulher auto-suficiente e determinada se protegeria a si e aos filhos". 
Esta observação, só me leva a pensar, que quem a profere pode  ser alguém muito inteligente, mas não sabe nadinha da vida e muito menos das dinâmicas da violência doméstica e das suas vítimas.


porque hoje é sábado


#Bill Perlmutter

2017-12-14

cativante



OS ANOS SÃO SEMPRE OS RESPONSÁVEIS

Os anos deviam convocar a esta mesa
defraudada pela técnica
uma lição das coisas que fosse mais amável.
Com alguma beleza nos desastres 
do tempo
e daquilo que hoje por pobreza de espírito
chamamos o destino.
Com toda a mecânica fantasmática da memória.
Com as imagens singulares nas retinas
de outrora,
esses cavalos soberbos, erguidos contra os anos
e a relinchar as suas músicas
antes do abate.

Mas eu revejo o álbum dos anos e tudo são figuras
de folclore,
já não sinto vergonha em dizê-lo,
como escreveu o Drummond, minha matéria 
é o nada.
Pior que isso, foi o nada.

Eu e as lentes. Pensei que elas fossem os olhos
da ciência de ver, frias, mas que soubessem medir
a distância entre o prazer e os simples
acidentes do sexo.
Agora que uma névoa se espraia panorâmica
e muda à minha volta
e tudo me obriga a consultar
o facultativo.

Sempre me deixei levar pela cabeça
nas águas mais impróprias em que braços e pernas
me arrastavam junto ao que eu chamaria amor
e seria só sangue em desequilíbrio.
Eu soprava forte nessa arte pneumática
criada pelo desejo
e o ar, menos que o ar, levava tudo.

Repito: hoje o que procuro é a síntese do nada.
E alguma palavra antiga, escura
e melancólica,
que me traga, oculta, certos soluços de alma.
Já desisti dos teóricos, além de chatos
são duma vaidade insuportável.
Prefiro o ingénuo.
E neste Natal ainda sou capaz de ir beijar, disfarçadamente,
o pé ao Menino.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"
Assírio & Alvim
#imagem - Isabela Ginanneschi

2017-12-13

estamos irreconhecíveis

(imagem-Enzo Sellerio)


Escreve Miguel Real, na "Nova Teoria do Pecado" - Ed. D. Quixote:"Como é possível fundar uma civilização sobre uma categoria negativa como o pecado? Entre as várias respostas possíveis, uma recebe o acordo deste ensaio: porque existe antropologicamente no homem um sentimento de culpa, difuso e inconsciente, originado pela incapacidade de vencer definitivamente o mal e o medo por este criado: as quatro fontes do mal (carência, sofrimento psíquico, dor física e morte) e o medo como a mais sólida das emoções primárias."

Presentemente, e perante as mais diversas suspeitas e até acusações, o que mais se proclama é uma consciência limpa e tranquila. Será esta a característica base dos "nórdicos do séc. XXI"?


2017-12-10

E danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.



tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes – essas mulherzinhas também –
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe – viver a vida

ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.

Nina Rizzi (lido no blogue do Henrique)


O assédio e a violência doméstica têm progredido sob o manto do silêncio. O silêncio envergonhado e o silêncio cúmplice. 
Romper esse manto nebuloso, indignar-se e manifestar-se contra preconceitos ignorantes que atravessam todo o tecido social, e se manifestam até em instituições que deveriam ser exemplares.


no reino fungi - na natureza tudo se convoca


andamos todos a dormir, certo?



Isto é surreal.

2017-12-06


Assisti ontem a esta conversa sobre as raízes judaico-cristãs. Soube-me a pouco, sobretudo pela narrativa do frei Fernando Ventura, para quem a dúvida se resume a uma dimensão transitória de regresso à fé.


janela indiscreta


As "novas" tecnologias fornecem os meios para que sejamos uma súcia de mirones maledicentes. Alegremente vivemos nisto.

2017-12-04

vale a pena ler

O corpo da mulher “provoca a incontrolabilidade masculina”, ou seja, “é desculpável que os homens se descontrolem perante a rejeição de uma mulher ou a possibilidade da perda do acesso à mulher”, explica a socióloga. “Isto é visível em muitas das nossas decisões judiciais. Lembro-me de um acórdão muito recente de um incendiário que teve uma pena suspensa e uma das argumentações era que ele estava bastante perturbado porque a mulher se tinha divorciado dele.” Este desconforto, frustração e potencial comportamento agressivo de alguns homens perante um não da mulher remetem-nos para as questões interrelacionadas do consentimento e da masculinidade hegemónica, que são centrais para descodificar as raízes do assédio e da violência de género no geral. “Uma das componentes da masculinidade hegemónica é a não-aceitação do não”, aliada “à crença de que assediar é um elogio”, nota Conceição Nogueira. Forçar a intimidade não é sedução nem flirt; é assédio. “A pessoa diz que não, mas é para se fazer de difícil, portanto deixa tentar mais duas ou três vezes, mais quatro ou cinco”, exemplifica Conceição.
...
porque o assédio é sempre um acto de poder, nem que seja simbólico.



suavíssimo

2017-11-24


#imagem - Wendy Ewald
«Para Deus o bom grão é mais importante e mais verdadeiro do que a cizânia, a luz vale mais do que a escuridão, o bem pesa mais do que o mal.»

Bem mais do que o(s) Papa(s)e/ou as pessoas da comunidade mais restrita, foi este discurso que me arredou da Igreja. Este modo simplista, lírico, desumano de olhar cada um para si próprio e para os outros. 
Não posso dizer que tenho pena, pelo contrário, vou seguindo mais livre, que é o caminho que me convém. Livre na errância.

2017-11-23

Daqui

Hesitei se devia publicar esta foto. Não sou dada a considerar que uma imagem define uma pessoa ou situação. Mas é uma imagem forte, portanto, aqui fica.

2017-11-22

o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar

TERRA NAVEGÁVEL

Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.

Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.

Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.

Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.

A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.

Confundimos as ondas com os limos da garganta,
as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra Do Mar"
Assírio & Alvim

2017-11-16


#refugiados Rohingya - Reuters/Navesh Chitrakar

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

2017-11-05

Not Dark Yet - Bob Dylan

ALGUMA ETERNIDADE

Um nome é uma vida, um sangue, um coração absoluto,
o estremecer de alguma eternidade.

Tudo tem direito a um nome.
Até uma lagarta que se move entre as frescura das couves
e os restos amarelos do que já apodreceu,
com todos os seus gestos lentos de cocotte,
não despedaça o seu nome na lama.
A boca de deus chamará
por ela.


Olhai toda a natureza exuberante
que merece o esplendor de uma outra nomenclatura.
A não-nomenclatura que existe antes do verbo,
todo esse despertar do mal e bem entre a matéria,
da exaltação da flora desumana,
da língua branca e fria
e glaciar,
da boca aberta da lava,
dos avós asteróides, da desordem do ser e do silêncio,
da igualdade da morte, da monotonia
da vida.

Os nomes não queimam o tudo e todos
que a eles têm direito.
É a língua da carne em chamas,
no frio da casa obscura,
feita de nós, por nós, ociosos de deus,
criada de apelos verbais,
pois quem finge que chama, chama para dividir
e reinar,
nunca saberá olhar a sombra do seu próprio monstro,
e ser também a simples partícula do bem
suspenso no vazio do seu nome.


Armando Silva Carvalho in "A Sombra do Mar"


2017-11-03

quem não gosta é uma folha de couve

ademais

Os homens, reconhecendo a inconveniência de aceitar a natureza feia como ela às vezes se apresenta, deliberaram, de comum concerto, pôr-lhe máscara.


Camilo Castelo Branco in "O Que Fazem as Mulheres"

abrir os olhos é preciso


Temo, temo seriamente, que tanta indignação com os casos mais mediáticos de violência doméstica e de assédio, sirvam apenas para aliviar algumas consciências. E todas as mulheres e crianças, que não têm nome para aparecer nos jornais ou redes sociais, continuem no anonimato a ser tão vítimas quanto o foram antes.

2017-10-23

como livros fechados



Li há pouco: "um católico tem fé e a fé não desespera." E embrenho-me em cogitações e interrogações: um vaso é aquilo que contém? católico uma vez católico para sempre (mesmo que não esteja de acordo quanto a princípios nem comungue da vida da Igreja)? É possível possuir uma fé que seja mais que interrogação e espera?
CHUVA DOMÉSTICA

Concede o teu perdão àquele que foste ontem
e não te conhece hoje debaixo do chuveiro.
As casas não sabem nada de nós próprios 
e são paredes de hábitos,
casulos seculares.
Há vinte anos tu eras diferente, as casas não sabem nada,
dizia o outro e bem,
muito menos o que tu foste ontem sobre o que tu és hoje
debaixo do chuveiro.

O que tu foste ontem não tem nada a ver com essa barba grossa,
com essa dor no dedo grande do pé
e que te dizem ser gota, e essa excitação precoce
que te vem da memória
e começou agora extemporânea e ridícula, quando o dedo te dói
e o tempo, como se fosse um século, tem um dia de vida,
uma noite, e falavam do ébola a invadir a europa.

Toda esta chuva minúscula que te cai da  boca,
todo este desabar de água controlada e tépida te leva  a esquecer
o que é uma epidemia, foi ontem?
Que estranhas criaturas, hiper-protegidas,
desfilaram ontem como um sonho e hoje de manhã
são como um pesadelo?
A verdade é só uma, o que tu foste ontem
já não te conhece.

Não consintas que deus te sobreponha os dias
aos mistérios do tempo.
Exige a cada minuto o seu próprio prazer e desilusão.
Por alma dos que lá tens coça o dedo grande do pé
e fecha-me essa torneira. Tu ainda não reparaste,
mas a casa de banho é agora um lago.

Armando Silva Carvalho in A Sombra do Mar
Assírio & Alvim


2017-10-22

Montserrat Figueras - Yo soy la locura





Tenho dias em que a vida entra por mim devagarinho, quase sem eu dar por isso. Dias em que até a santidade me parece acessível, como colher um bom fruto, de tal modo acessível ao alcance da mão que me basta um pequeno salto que eu saltarei quando quiser. Dias em que todos me parecem bons e em que quase me convenço de que os homens se amam de facto uns aos outros. Mas passa uma noite e acorda-se já num outro mundo. Mundo de lassidão e de peso. Mundo que sinto nos ombros e me esmaga.


António Alçada Baptista - Peregrinação Interior
#imagem - Rufino Tamayo, 1977

2017-10-20

exatamente


Só um idiota urbano, daqueles que precisam de ser submetidos a 35 graus centígrados em meados de Outubro, depois de seis meses sem chover, para chegar à conclusão de que aquilo a que insistentemente chamaram “bom tempo” é uma catástrofe, é que não percebe que aquele mar verde de oliveiras a perder de vista, alimentadas para crescerem mais num ano do que os antigos olivais cresciam numa década, e ocupando o terreno com a mesma densidade que uma plantação de couves, consomem água e fertilizantes em porções criminosas. Em pouco tempo, a terra fica exaurida e o deserto cresce. Noutros lugares do Alentejo, os olivais com mil anos não precisam que lhes seja erguido um “memorial” porque são eles que transportam a memória do mundo.

António Guerreiro no Público

2017-10-19




A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.



Manuel António Pina

#imagem. Mimmo Jodice, Nápoles, 1980

tirem-me deste filme



Há homens grandes que se equipam a preceito, às quintas e domingos saem para os campos, e publicitam impantes as presas que andaram a criar em cativeiro, e dias antes soltaram para poder matar.

2017-10-15





Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.



Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

2017-10-14

o dia seguinte

No dia de ontem, obriguei-me a ver "a entrevista" (a esperança é a última a morrer), mas serviu apenas para reforçar um estado de náusea. Nunca é agradável percepcionar a manipulação. Reconhecer que alguém se serviu de um cargo público para alimentar a ânsia desmedida de posse, é desolador. Sim, por duas vezes contribui  com o meu voto para que José Sócrates fosse eleito para chefiar um governo, que eu acreditava ser o melhor para o país.  

Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.

porque hoje é sábado


# imagem de Ken Heyman