2017-08-17



pois é, pois é, quão racionais são as nossas escolhas inclusive as políticas?


¿Son irracionales nuestras ideologías? ¿Votamos racionalmente o estamos obedeciendo a nuestros profundos marcos mentales? ¿Lo hacemos en base a compartir unas propuestas o por tocarles las gónadas a los otros sean los “progres” o los “liberales”?

ler todo o artigo aqui 

2017-08-14

EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:

trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz

Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a alegria do nosso mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que trás em si próprio a violência do toiro.

Só poderás ser liberta aqui na manhã d'Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas - portadoras limpas da serenidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Geografia





Sou livre, finalmente. Desde os dez anos que a minha vida foi só atletismo. Quero relaxar, viver um bocadinho e estou entusiasmado"

Usain Bolt

2017-07-21

Amigo


Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

2017-07-19

ese aliento original

O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

Aldous Huxley, admirável mundo novo
do Prefácio do autor (1946)
trad. Mário-Henrique Leiria
Antígona

2017-07-15




Entre estar alapada num areal sobrelotado ou ficar  a ouvir o canto das cigarras na tarde esbraseante, é tão fácil a escolha.


#imagem by Eva Besnyö

só por isto fica uma vontade enorme de ver o filme


E esta dimensão idiomática da linguagem alarga-se ao que no filme pertence a códigos não-verbais, muito especialmente as fisionomias e os gestos. Dir-se-ia mesmo que o filme foi feito para restituir os gestos e as palavras de que as pessoas foram espoliadas e que deixaram de ter valor no mercado social.


António Guerreiro, aqui

porque hoje é sábado

2017-07-11

ainda não vimos nada



¿Y por qué soy optimista con todo esto? Una parte sería porque, si eres pesimista sobre esto, es muy difícil llevar el día a día.


[daqui]

 Ode ao Cidadão Anónimo

Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.


Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

E. M. de Melo e Castro (aqui)

2017-07-06

o que eu penso quando medito


Bem, podia dizer-te que podia dizer-
-te mas não ias perceber mas não o farei
Tu perceberias mas eu não consigo, quer dizer topa isto,
                           não tenho unhas para esta guitarra
               detesto sentar-me de pernas cruzadas
doem-me os joelhos o nariz escorre e tenho de ir
                           à retrete
já de seguida e raisparta o gajo nunca mais toca o sino.

O que eu penso quando medito é no vazio.
                           lembro-me bem
as cabeças vazias             o fsssssss do foguete
Mas o que penso mesmo é em sexo
                           tipo padrões de sexo
como pelos a dançar e pele de galinha
                           Não, a sério
O que eu penso é no que estou eu a pensar?
                           e
Quem sou eu? E «MU?» e as nuvens
                                                              no
                    monte do sul
Quer dizer: aquilo em que honesta e realmente penso, fora de brincadeiras
                    ... (etc.)
 
(rapinado daqui)

2017-07-04

fez escola



«Não é nada do que o sr. pensa. O sr. julga que as minhas investigações são investigações por assim dizer físicas, que sigo gente, e examino o local do crime, e tomo medidas no chão. Não é nada disso. Eu resolvo os problemas, em geral, sentado numa cadeira, em minha casa ou noutra parte qualquer onde me possa encostar confortavelmente, fumando os meus charutos Peraltas, e aplicando ao estudo do crime praticado aquele tipo de raciocínio de natureza abstrata que foi o triunfo dos escolásticos e a glória bizantina dos homens que argumentam sobre puras futilidades.»


Fernando Pessoa in Novelas Policiárias
Assírio & Alvim



2017-06-29

dimensão



O ser humano é uma gigantesca superfície pantanosa. Se o entusiasmo se apodera dele, isso corresponde, no plano do todo, ao movimento em que, algures num recanto desse pântano, uma pequena rã salta para a água verde.



F. Kafka in Parábolas e Fragmentos,
seleção, tradução e prefácio de João barrento
Assírio & Alvim

coisas que não interessam nem ao menino jesus



Não sei como é que se pode afirmar que num debate sobre a existência de Deus, entre crentes e não crentes, um dos lados ganhou o debate.

(A propósito deste post do Ouriquense)

2017-06-28



The "Milky Way" is seen across the sky in the early morning hours at the Takhin Tal National Park, part of the Great Gobi B Strictly Protected Area, in south-west Mongolia, June 23, 2017. Picture taken June 23, 2017. REUTERS/David W Cerny

2017-06-26



A imperfeição é aquilo que me fascina.


[Pedro Jóia, aqui]


Sabemos hoje que a depressão é uma dor muda. Nick Drake deu-lhe voz, fê-la cantar. Estranho é que nos apazigúe ouvi-lo, tanto quanto nos comove. As suas canções são a expressão de uma tristeza e de uma dor que reivindica a nossa cumplicidade, estabelecendo entre o intérprete e os ouvintes pontes apenas concebíveis no domínio da arte. Em vida, tais pontes falham. Em vida, a tristeza permanecerá invariavelmente isolada numa das margens. A mais obscura. Ninguém a convidará para dançar.  

[Um excelente texto do Henrique sobre Nick Drake...e não só.]


2017-06-24

precioso

depois quer ser levada a sério


A Direita encontrou o seu mártir - Sebastião Pereira.

o infantilismo católico


porque hoje é sábado



Kati Horna, Guerra/Revolução 1936-1939

2017-06-21

coisas pequenas




luz/sombra


[Os Ocidentais] nas divisões das casas, evitam os recantos o mais que podem, pintam de branco o tecto e as paredes que os rodeiam. Até no desenho dos jardins, onde nós arranjamos bosquezinhos sombrios, eles estendem amplos relvados planos.
Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfizemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra
Relógio D'Água
Trad. Margarida Gil Moreira

#imagem - Hashimoto Gaho, 1835-1908

2017-06-18


O sol embaciado pelo fumo, a cinza que polvilha o chão do quintal e o silêncio pesado, apenas cortado, a espaços, pelos trinados das aves, fazem memória de todos os que perderam a vida ou lutam por ela. É tão frágil o que nos sustém. 

2017-06-17

(com)pasión

em busca da paz de espírito



De cada vez que, num mosteiro de Kyoto ou de Nara, me indicam o caminho das retretes construídas à maneira de outros tempos, meio escuras e no entanto de uma limpeza meticulosa, sinto intensamente a qualidade rara da arquitetura japonesa. Um pavilhão de chá é um local agradável, admito, mas as retretes em estilo japonês, isso sim, é algo que verdadeiramente foi concebido para a paz de espírito. Sempre à parte do edifício principal, estão colocadas ao abrigo de um bosquezinho de onde nos chega um aroma de folhagem verde e musgo; depois de, para lá chegar, se ter seguido por uma galeria coberta, de cócoras na penumbra, envoltos na luz suave dos shõji e mergulhados em pensamentos, experimenta-se, contemplando o espetáculo do jardim que se esconde sob a janela, uma emoção impossível de descrever. 


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra

porque hoje é sábado





# Edward Steichen. Dana’s hands and grasses. Long Island, New-York 1923

2017-06-16


POESIA VISUAL
todos os poemas são visuais
porque são para ser lidos
com os olhos que vêem
por fora as letras e os espaços
mas não há nada de novo
em tudo o que está escrito
é só o alfabeto repetido
por ordens diferentes
letras palavras formas
tão ocas como as nozes
recortadas em curvas e lóbulos
do cérebro vegetal: nozes
os olhos é que vêem nas letras
e nas suas combinações
fantásticas referências
vozes sobretudo da ausência
que é a imagem cheia
que a escrita inflama
até ao fogo dos sentidos
e que os escritos reclamam
para se chamarem o que são
ilusões fechadas para
os olhos abertos verem

E.M. de Melo e Castro

2017-06-14



Santiago de Compostela

Una fina llovizna, como si el Atlántico
hiciera examen de conciencia
Noviembre ya ha dejado de fingir
La lluvia ha apagado las hogueras y las chispas
Santiago es la capital secreta de España
De día y de noche patrullas van hacia ella
Por las calles deambulan los peregrinos, cansados
o muy vivaces, como cualquier turista
Junto a la catedral vi a una mujer
que se había reclinado en su mochila y lloraba
La peregrinación había acabado
Adónde iba a ir ella ahora
La catedral son solo piedras
Las piedras no conocen el movimiento
Se aproxima la noche
y el invierno


Adam Zagajewski, prémio Princesa das Astúrias 2017




2017-06-12

uma nova "versão" (será que existe?)


“Hoje vai ser diferente. Hoje, vou estar presente no momento. Hoje, sempre que falar com alguém, vou fitar a pessoa nos olhos e escutar com toda a atenção. Hoje, vou jogar um jogo de tabuleiro com o Timby. Vou tomar a iniciativa e fazer sexo com o Joe. Hoje, vou ter brio na minha aparência. Vou tomar banho, vestir uma roupa como deve ser e só vou enfiar o fato do ioga para a aula de ioga, à qual irei mesmo. Hoje, não vou dizer palavrões. Não vou falar de dinheiro. Hoje, terei um ar descontraído. O meu rosto estará relaxado, em repouso terá um sorriso. Hoje, vou irradiar serenidade. Serei um portento de bondade e autocontrolo. Hoje, só vou comprar produtos locais. Hoje, encarnarei o melhor de mim, a pessoa que sou capaz de ser. Hoje vai ser diferente.”

2017-06-07



As árvores 


Pois nós somos como troncos de árvores na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas - quem diria? - até isso é ilusório.


Franz Kafka in "Parábolas e Fragmentos"
Trad. João Barrento
Ed. Assírio & Alvim

#imagem - Harry Callahan, Chicago, 1950

2017-06-06




Edward Steichen (1879-1973)
Dana and the Apple, New York
1922

Caminharemos de Olhos Deslumbrados

Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

No ritual do verão descobriremos
O segredo dos deuses interditos
E marcados na testa exaltaremos
Estátuas de heróis castrados e malditos.

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!
Ó deus das virgens loucas
Dos amantes com cio,
Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,
Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,
Fustiga-nos os membros como um látego doido,
Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,
Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,
Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,
Atapeta de flores a estrada que seguimos
E carrega de aromas a brisa que nos toca.

Nus e ensanguentados dançaremos a glória
Dos nossos esponsais eternos com o estio
E coroados de apupos teremos a vitória
De nos rirmos do mundo num leito vazio.


Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

2017-06-01


É inenarrável esperar a morte em Portugal. 

Há meia dúzia de meses que acompanho a luta da C. para resistir à morte que, entre internamentos e convalescenças em casa, não para de a rondar, como na segunda feira dizia, sem  já conseguir reconhecer-me.

A C. é a prova provada de que não é o doente, e sobretudo o doente idoso, que está no cerne das decisões, das políticas de saúde em Portugal.

2017-05-29



«Há artistas que trabalham de dentro para fora, há artistas que trabalham de fora para dentro. Os primeiros trazem um imenso mundo dentro de si e vivem na necessidade imparável e na urgência de o trazer para fora; outros limitam-se a recolher os elementos do mundo e a reorganizá-los à sua maneira. Só podemos oferecer o que nos cabe na mão.»


Rui Chafes in "Entre o Céu e a Terra"

do atavismo


Blues dos refugiados

Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.

Já tivemos um país, que nos parecia bem,
Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:
Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.

Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,~
E todas as Primaveras de novo floreja,
Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.

O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:
«Não têm passaporte, estão mortos oficialmente.»
Mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.

Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;
Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.
Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?

Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:
«Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.»
Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.

Pensei ouvir trovões no céu a tremer;
Era Hitler na Europa, dizendo: «Devem morrer.»
Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar em nós.

Vi um cão de água à lapela de um fato,
E uma porta  abrir-se para que entrasse um gato:
Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.

Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,
na água vi os peixes a nadar livremente:
Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.

Andei pela floresta, vi pássaros empoleirados,
Não tinham políticos e piavam os seus trinados,
Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.

Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,
E milhares de janelas, portas aos milhares,
E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.

Cheguei a uma campina com a neve tombando,
Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;
Procurando-nos aos dois, amor, procurando-nos aos dois.


W. H. Auden in "Outro Tempo"
Trad. Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água


A manchete de um jornal diário, informa que o SEF pretende, com a devida pressão de vários escritórios de advogados, acelerar a emissão dos "vistos Gold". Conceder cidadania a troco de dinheiro, de proveniência duvidosa, muitas vezes, é algo a que um Governo de esquerda se deveria privar.

2017-05-25

magnífica


Cita-se Simone Weil e a seguir vale tudo:

Esse é o momento de ser conseqüente. E de exigir o equilíbrio imediato da balança dos poderes. Agora, e não dentro de 170 anos. É tempo de retirar aos opressores o poder de oprimir. E, na democracia, o poder se exerce pelo voto. A suspensão temporária do poder do voto dos homens brancos é a única chance de produzir uma real alteração no mundo no espaço de apenas uma geração. Todos os dados demonstram que apenas 20 anos seria o suficiente, e os benefícios seriam universais, e não apenas para mulheres.

2017-05-22

por Ouologuem Yambo
Poesia Africana
Tradução de Manuel de Seabra
Lisboa, 1974

Todos pensam que eu sou um canibal
Mas bem sabem o que são as línguas

Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam 
Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados

Ou talvez grelhados
Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olharam com medo para as 
Minhas gengivas
Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os tomates

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos se repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado

Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigadas por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates




rapinado daqui



2017-05-12



MUSÉE DES BEAUX ARTS

Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres;perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lagona orla da floresta;
Nunca esqueceram

Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.

No Ícaro de Breughel, por exemplo, como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.


W. H. Auden in "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato
Ed. Relógio D'Água