2017-10-15





Fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
Toda a Natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
E, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
e os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.



Fiama Hasse Pais Brandão
Cenas Vivas, Relógio d’Água

2017-10-14

o dia seguinte

No dia de ontem, obriguei-me a ver "a entrevista" (a esperança é a última a morrer), mas serviu apenas para reforçar um estado de náusea. Nunca é agradável percepcionar a manipulação. Reconhecer que alguém se serviu de um cargo público para alimentar a ânsia desmedida de posse, é desolador. Sim, por duas vezes contribui  com o meu voto para que José Sócrates fosse eleito para chefiar um governo, que eu acreditava ser o melhor para o país.  

Também no dia de ontem foi apresentado o orçamento de Estado para o próximo ano. Nos evangelhos é recomendado que "os mortos enterrem os seus mortos" - um convite a olharmos o futuro, mas torna-se ensurdecedor o silêncio do Partido Socialista sobre o que se passou entre 2005 e 2011.

porque hoje é sábado


# imagem de Ken Heyman

2017-10-02

no ano da graça de 2017, século XXI, portanto,



Isaltino de Morais é eleito presidente de Câmara de Oeiras. Hoje reparo que os suportes de papel higiénico, nas casas de banho do centro comercial da cidade, estão trancados a cadeado.

2017-09-27


Obscurecer


Que paraíso
poderei extrair de tantas ruínas
sem nelas me perder?

Aproximei-me do vidro e obscureci
com a fome do ver
a noite que se iluminava em diante.



Luís Quintais in "Mais espesso que a água"
Ed. Livros Cotovia

um rosto, um mundo


Fernando Lemos, aqui

2017-09-22

temos a louca mania de relativizar tudo à nossa volta



As coisas



A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

Jorge Luis Borges

2017-09-13


E, no entanto, nada existe no mundo que possa impedir o homem de sentir-se nascido para a liberdade. O que quer que advenha, jamais ele poderá aceitar a servidão, pois nele existe o pensamento. Jamais cessou de sonhar uma liberdade sem limites, quer sob a forma de uma felicidade passada, da qual, por castigo, teria sido privado, quer como felicidade vindoura, que lhe seria devida através de uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo concebido por Marx é a forma mais recente deste sonho. Tal sonho, como todos os sonhos, sempre permaneceu vão, e se através dele alguma consolação adveio foi semelhante àquela oferecida pelo ópio; é já tempo de renunciar a apenas sonhar a liberdade e decidir concebê-la.

Simone Weil
em Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão social, tradução de Maria de Fátima Sedas Nunes, Lisboa: Antígona, 2017, p. 73.


retirado do blogue de manuel a. domingos

2017-09-10

onde é que já eu ouvi isto?



Entre outras coisas, a “comida limpa” veio confirmar o quão vulneráveis e perdidos milhões de nós se sentem relativamente ao regime alimentar – ou seja, relativamente ao nosso corpo. Estamos tão desorientados que depositamos as nossas esperanças numa qualquer entidade que nos prometa que também nós podemos ser puros e bons.

jornal Público

2017-09-08

"a tirania da luz"


Estamos submetidos a uma tirania da luz, mas essa tirania não começou no nosso tempo nem é explicável apenas como um resultado da urbanização generalizada e da colonização tecnológica: ela tem atrás de si uma longa história filosófica, cultural e política. 

António Guerreiro no Público


2017-09-05



Ó olha, olha-te ao espelho,
Olha em tua inquietação;
Já não sabes bendizer
Mas a vida é uma bênção.

[W.H. Auden]


M., três anos a descobrir.

2017-09-03



#Sally Mann
21 de Agosto de 1909


Minha querida Nora,

Parece-me que estás apaixonada por mim, não estás? Dá-me prazer pensar que estás a ler os meus versos (embora tenhas levado cinco anos a descobri-los). Quando os escrevi, eu era um rapaz estranho e solitário, que passeava pelas ruas à noite, sozinho, e pensava que um dia seria amado por uma rapariga. Mas nunca conseguia falar com as raparigas que encontrava em casa das pessoas. As maneiras delas eram tão artificiais que me paralisavam. Depois tu vieste ao meu encontro. Em certo sentido, não eras a rapariga com quem eu sonhara e para quem tinha escrito os versos que hoje te parecem tão encantadores. Essa (tal como eu a imaginava) era talvez uma rapariga de uma estranha beleza grave, assim moldada pela cultura das gerações anteriores, a mulher para quem escrevi poemas como «Gentle lady» ou «Thou leanest to the shell of night». Mas depois vi que a beleza da tua alma eclipsava a dos meus versos. Havia em ti algo mais elevado do que tudo o que eu tinha posto neles. Por essa razão, esse livro de poemas é para ti. Ele exprime o anseio da minha juventude, e tu, querida, foste a satisfação desse anseio.
Fui cruel contigo? De uma crueldade, pelo menos, não me podes acusar. Não destruí o amor cálido, impetuoso e vivificante que há dentro de ti. Examina agora as profundezas do teu coração, querida, e diz-me que ele não endureceu nem envelheceu ao longo destes anos que passaste comigo. Não, és hoje capaz de sentimentos mais belos e profundos do que no início. Diz-me, minha querida Nora, que a minha companhia foi boa para ti, e eu dir-te-ei o que a tua significou para mim.
[...]

Jim


James Joyce in "Cartas a Nora"
trad. José Miguel Silva
Relógio D'Água

2017-09-01

escute-se o poeta


De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados, as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.

iniciarei setembro assim


a saber o que me espera

2017-08-30



"A mesma igreja que rejeita a contracepção artificial, a interrupção voluntária da gravidez ou a adoção por casais homossexuais deveria ter como imperativo categórico o reconhecimento de que qualquer ser humano tem direito a saber quem são os seus progenitores. Mesmo que um deles seja um padre católico. Para usar expressões tão caras ao catolicismo, é um imperativo ético e moral que assim seja. Foi isso o que fez a muito tradicional e católica igreja irlandesa, cuja conferência episcopal acaba de tomar uma decisão inédita e de grande importância simbólica: todos os padres que tenham violado o voto de celibato e se tenham tornado pais devem “pôr os interesses das crianças em primeiro lugar”." 

jornal Público

[Como é que a Igreja Católica ainda vai aqui (ou bem longe como acontece em Portugal)?]

2017-08-29


O Mais Fundo de Nós Mesmos

A uma certa altura do auto-conhecimento, quando estão presentes outras circunstâncias que favorecem a auto-segurança, invariavelmente e sem outra hipótese sentimo-nos execráveis. Todas as medidas do bem — por muito que as opiniões possam diferir sobre isto — parecerão demasiado altas. Vemos que não passamos de um ninho de ratos feito de dissimulações miseráveis. O mais insignificante dos nossos actos não deixa de estar contaminado por estas dissimulações. Estas intenções dissimuladas são tão horríveis que no decurso do nosso exame de consciência não vamos querer ponderá-las de perto, mas, pelo contrário, ficaremos contentes de as avistar de longe. Estas intenções não são todas elas feitas apenas de egoísmo, o egoísmo em comparação parece um ideal do bem e do belo. A porcaria que vamos encontrar existe por si só; reconheceremos que viemos ao mundo pingando este fardo e sairemos outra vez irreconhecíveis, ou então demasiado reconhecíveis, por causa dela. Esta porcaria é o fundo mais profundo que encontraremos; nos fundos mais profundos não haverá lava, não, mas porcaria. É o mais fundo e o mais alto e até as dúvidas que o exame de consciência origina em breve enfraquecerão e se tornarão complacentes como o espojar de um porco na imundície.

Franz Kafka, in "Diário (07 Fev 1915)"

2017-08-22

à consideração do "jornalismo desnorteado"*



Vinte dias atrás meti uma rosa no copo
perto da janela em cima da mesinha.
Quando reparei que as folhas
perdiam o vigor
sentei-me diante do copo para ver a rosa morrer.

Esperei um dia e uma noite.

A primeira pétala desprendeu-se às nove da manhã
e deixei que caísse em minhas mãos.
Nunca tinha estado ao leito de morte de um moribundo
nem quando minha mãe morreu, 
pois então estava de pé, ao longe, no fundo da rua.


Tonino Guerra in "O Mel" - Canto Trigésimo Segundo


A expressão é do colega do blogue "Ouriquense". Tenho acompanhado muito esporadicamente os relatos do horror dos atentados terroristas em Espanha e outros. Mas o pouco que vejo (pela necessidade de me sentir informada), revela-me a absoluta falta de pudor que se tem perante a morte, os familiares e próximos das vítimas.






(a)gosto



2017-08-17



pois é, pois é, quão racionais são as nossas escolhas inclusive as políticas?


¿Son irracionales nuestras ideologías? ¿Votamos racionalmente o estamos obedeciendo a nuestros profundos marcos mentales? ¿Lo hacemos en base a compartir unas propuestas o por tocarles las gónadas a los otros sean los “progres” o los “liberales”?

ler todo o artigo aqui 

2017-08-14

EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:

trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz

Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a alegria do nosso mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que trás em si próprio a violência do toiro.

Só poderás ser liberta aqui na manhã d'Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas - portadoras limpas da serenidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Geografia





Sou livre, finalmente. Desde os dez anos que a minha vida foi só atletismo. Quero relaxar, viver um bocadinho e estou entusiasmado"

Usain Bolt

2017-07-21

Amigo


Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"

2017-07-19

ese aliento original

O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

Aldous Huxley, admirável mundo novo
do Prefácio do autor (1946)
trad. Mário-Henrique Leiria
Antígona

2017-07-15




Entre estar alapada num areal sobrelotado ou ficar  a ouvir o canto das cigarras na tarde esbraseante, é tão fácil a escolha.


#imagem by Eva Besnyö

só por isto fica uma vontade enorme de ver o filme


E esta dimensão idiomática da linguagem alarga-se ao que no filme pertence a códigos não-verbais, muito especialmente as fisionomias e os gestos. Dir-se-ia mesmo que o filme foi feito para restituir os gestos e as palavras de que as pessoas foram espoliadas e que deixaram de ter valor no mercado social.


António Guerreiro, aqui

porque hoje é sábado

2017-07-11

ainda não vimos nada



¿Y por qué soy optimista con todo esto? Una parte sería porque, si eres pesimista sobre esto, es muy difícil llevar el día a día.


[daqui]

 Ode ao Cidadão Anónimo

Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro
Que compras tudo o que és capaz de comprar
E deitas para o lixo tudo o que compraste

Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida
Vida que é pequena e que só tens uma
Mas finges ignorar

Que pagas as contas que fazes sem saber porquê
Mas esperas descontos nos contos do vigário
que os teus credores te contam

Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão
de que o que fazes é produtivo para o teu país,
vais verificando dia a dia
que o teu trabalho é inútil principalmente para ti
porque um dia te despedem
até ficares despido

porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto
e tu que te lixes no lixo
porque o trabalho que fizeste toda a vida
é muito mais bem feito por qualquer robot
e ninguém dá por isso se não for feito
por isso és despedido
Assim desfruta a tua liberdade de desempregado
o melhor que puderes
porque és livre e por isso descartável

Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal
cibernetizada e deves ficar feliz com isso!

Mas não digas a ninguém.
Chora essa tua felicidade sozinho.


Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.
Finge que trabalhas.
Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes
Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso
Que é teu
Mas irá fortalecer o sistema capitalista
E o igualmente selvagem neoliberalismo…
De que tanto gostas
E em que votaste à toa!

E. M. de Melo e Castro (aqui)

2017-07-06

o que eu penso quando medito


Bem, podia dizer-te que podia dizer-
-te mas não ias perceber mas não o farei
Tu perceberias mas eu não consigo, quer dizer topa isto,
                           não tenho unhas para esta guitarra
               detesto sentar-me de pernas cruzadas
doem-me os joelhos o nariz escorre e tenho de ir
                           à retrete
já de seguida e raisparta o gajo nunca mais toca o sino.

O que eu penso quando medito é no vazio.
                           lembro-me bem
as cabeças vazias             o fsssssss do foguete
Mas o que penso mesmo é em sexo
                           tipo padrões de sexo
como pelos a dançar e pele de galinha
                           Não, a sério
O que eu penso é no que estou eu a pensar?
                           e
Quem sou eu? E «MU?» e as nuvens
                                                              no
                    monte do sul
Quer dizer: aquilo em que honesta e realmente penso, fora de brincadeiras
                    ... (etc.)
 
(rapinado daqui)

2017-07-04

fez escola



«Não é nada do que o sr. pensa. O sr. julga que as minhas investigações são investigações por assim dizer físicas, que sigo gente, e examino o local do crime, e tomo medidas no chão. Não é nada disso. Eu resolvo os problemas, em geral, sentado numa cadeira, em minha casa ou noutra parte qualquer onde me possa encostar confortavelmente, fumando os meus charutos Peraltas, e aplicando ao estudo do crime praticado aquele tipo de raciocínio de natureza abstrata que foi o triunfo dos escolásticos e a glória bizantina dos homens que argumentam sobre puras futilidades.»


Fernando Pessoa in Novelas Policiárias
Assírio & Alvim



2017-06-29

dimensão



O ser humano é uma gigantesca superfície pantanosa. Se o entusiasmo se apodera dele, isso corresponde, no plano do todo, ao movimento em que, algures num recanto desse pântano, uma pequena rã salta para a água verde.



F. Kafka in Parábolas e Fragmentos,
seleção, tradução e prefácio de João barrento
Assírio & Alvim

coisas que não interessam nem ao menino jesus



Não sei como é que se pode afirmar que num debate sobre a existência de Deus, entre crentes e não crentes, um dos lados ganhou o debate.

(A propósito deste post do Ouriquense)

2017-06-28



The "Milky Way" is seen across the sky in the early morning hours at the Takhin Tal National Park, part of the Great Gobi B Strictly Protected Area, in south-west Mongolia, June 23, 2017. Picture taken June 23, 2017. REUTERS/David W Cerny