2017-08-30



"A mesma igreja que rejeita a contracepção artificial, a interrupção voluntária da gravidez ou a adoção por casais homossexuais deveria ter como imperativo categórico o reconhecimento de que qualquer ser humano tem direito a saber quem são os seus progenitores. Mesmo que um deles seja um padre católico. Para usar expressões tão caras ao catolicismo, é um imperativo ético e moral que assim seja. Foi isso o que fez a muito tradicional e católica igreja irlandesa, cuja conferência episcopal acaba de tomar uma decisão inédita e de grande importância simbólica: todos os padres que tenham violado o voto de celibato e se tenham tornado pais devem “pôr os interesses das crianças em primeiro lugar”." 

jornal Público

[Como é que a Igreja Católica ainda vai aqui (ou bem longe como acontece em Portugal)?]

2017-08-29


O Mais Fundo de Nós Mesmos

A uma certa altura do auto-conhecimento, quando estão presentes outras circunstâncias que favorecem a auto-segurança, invariavelmente e sem outra hipótese sentimo-nos execráveis. Todas as medidas do bem — por muito que as opiniões possam diferir sobre isto — parecerão demasiado altas. Vemos que não passamos de um ninho de ratos feito de dissimulações miseráveis. O mais insignificante dos nossos actos não deixa de estar contaminado por estas dissimulações. Estas intenções dissimuladas são tão horríveis que no decurso do nosso exame de consciência não vamos querer ponderá-las de perto, mas, pelo contrário, ficaremos contentes de as avistar de longe. Estas intenções não são todas elas feitas apenas de egoísmo, o egoísmo em comparação parece um ideal do bem e do belo. A porcaria que vamos encontrar existe por si só; reconheceremos que viemos ao mundo pingando este fardo e sairemos outra vez irreconhecíveis, ou então demasiado reconhecíveis, por causa dela. Esta porcaria é o fundo mais profundo que encontraremos; nos fundos mais profundos não haverá lava, não, mas porcaria. É o mais fundo e o mais alto e até as dúvidas que o exame de consciência origina em breve enfraquecerão e se tornarão complacentes como o espojar de um porco na imundície.

Franz Kafka, in "Diário (07 Fev 1915)"

2017-08-22

à consideração do "jornalismo desnorteado"*



Vinte dias atrás meti uma rosa no copo
perto da janela em cima da mesinha.
Quando reparei que as folhas
perdiam o vigor
sentei-me diante do copo para ver a rosa morrer.

Esperei um dia e uma noite.

A primeira pétala desprendeu-se às nove da manhã
e deixei que caísse em minhas mãos.
Nunca tinha estado ao leito de morte de um moribundo
nem quando minha mãe morreu, 
pois então estava de pé, ao longe, no fundo da rua.


Tonino Guerra in "O Mel" - Canto Trigésimo Segundo


A expressão é do colega do blogue "Ouriquense". Tenho acompanhado muito esporadicamente os relatos do horror dos atentados terroristas em Espanha e outros. Mas o pouco que vejo (pela necessidade de me sentir informada), revela-me a absoluta falta de pudor que se tem perante a morte, os familiares e próximos das vítimas.






(a)gosto



2017-08-17



pois é, pois é, quão racionais são as nossas escolhas inclusive as políticas?


¿Son irracionales nuestras ideologías? ¿Votamos racionalmente o estamos obedeciendo a nuestros profundos marcos mentales? ¿Lo hacemos en base a compartir unas propuestas o por tocarles las gónadas a los otros sean los “progres” o los “liberales”?

ler todo o artigo aqui 

2017-08-14

EPIDAURO

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:

trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz

Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a alegria do nosso mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que trás em si próprio a violência do toiro.

Só poderás ser liberta aqui na manhã d'Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas - portadoras limpas da serenidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in Geografia





Sou livre, finalmente. Desde os dez anos que a minha vida foi só atletismo. Quero relaxar, viver um bocadinho e estou entusiasmado"

Usain Bolt